em Crônicas

Nunca antes na história desse que vos escreve existiu tão pouco tempo livre na minha vida.

Eu poderia começar colocando a culpa de tudo no fato de que sou pai de uma criança de cinco anos e isso, por si só, é um consumidor de tempo inimaginável.

Existem centenas de milhares de conteúdos, memes e vídeos que já vão abordar essa diferença entre o tempo livre antes e depois da maternidade/paternidade.

Por isso, não é esse o caminho que escolhi seguir aqui, apesar desse fato ter relação direta com o que quero dizer.

O que aconteceu comigo, além da paternidade, foi a realização de que as coisas só acontecem se você fizer algo para que elas aconteçam.

Tá, não parece que tá fazendo sentido, mas vai fazer. Confia em mim.

Desde que comecei minha vida profissional eu batalho com o uso do “tempo livre”.

Isso porque eu sempre sonhei em ganhar a vida com algo que me deixasse extremamente empolgado e motivado para fazer.

Hoje eu entendo que o motivo de querer tanto isso é que viver do que eu gosto de fazer deixaria o meu “tempo livre” livre de verdade.

Eu já fui professor de artes orientais, Kung Fu e Acupuntura.

Administrava uma escola que não era minha e nem recebia para fazer esse serviço.

O que eu recebia era uma porcentagem da mensalidade de quem eu ensinava e de pagamentos de possíveis pacientes a quem eu tratava com medicina tradicional chinesa.

Foi uma época muito boa. Eu amava fazer aquilo.

Mas não dava dinheiro.

Simples assim.

Eu tinha 20 anos e fazer trezentos reais era considerado um mês bom.

Como eu não morava mais com meus pais, o valor não era o bastante pra pagar um aluguel na cidade que eu vivia.

Então, depois de alguns anos tentando, e falhando, eu mudei de estado para tentar viver disso.

São Paulo, a terra das oportunidades.

No fim, não deu certo.

Eu era formado técnico em Sistemas de Informação pela Escola Técnica Federal, já tinha criado um site para meus quadrinhos anos antes e trabalhei cerca de dois anos como programador após me formar aos 17 anos.

Isso foi o bastante para eu tentar a sorte com um emprego de programador.

Feito.

Passei a ganhar pelo menos 4x o que eu fazia na escola de artes orientais do dia para a noite.

Mas… precisava ficar fechado dentro de um escritório oito horas por dia.

Os anos passaram.

A arte marcial passou a ser algo que eu fazia no “tempo livre”. Assim como os quadrinhos.

A batalha interna era árdua.

Eu queria que o meu tempo livre fosse livre, não que eu tivesse que usar ele para fazer o que eu gostava de fazer de verdade.

Tentei empreender criando minha empresa de serviços de programação com a ideia de que, se eu fosse meu próprio chefe, eu teria o controle do meu tempo.

O negócio tinha potencial. Comecei com um caixa para alguns meses de contas pagas, já que tinha conseguido um acerto de demissão voluntária no antigo emprego.

Fali em exatos sete meses.

Realmente tinha o controle total do meu tempo, mas quem controlava minhas finanças era a capacidade de conseguir clientes. O que descobri não ser o meu forte.

Lá estava eu correndo para achar um novo emprego.

Indo atrás de vender meu tempo útil em troca de uma grana fixa, enquanto meu “tempo livre” deixaria de ser livre novamente.

Você pode estar se perguntando: porque só não deixar seu tempo livre… livre, então? A escolha é sua!

Essa pergunta é ótima e eu tentei fazer isso algumas vezes.

Vou só trabalhar e quando chegar em casa eu vou cozinhar, ler quadrinhos, ver TV… documentários, filmes e séries! Ah! Vou dormir bastante também!

Mas só quem tem a “coceira” do artista entende que isso não se sustenta com o tempo.

Se você não cria no horário de trabalho, você tem que usar seu tempo livre pra produzir aquilo que gosta.

É quase uma doença.

Bom, consegui um trabalho legal com programação em uma startup que ficava dentro de um escritório na Avenida Paulista.

Isso foi há 10 anos atrás.

Eu gostei da experiência de trabalhar em startups e acabei criando uma “carreira” de programador que deu certo.

Mas e o tempo livre?

Bom, ele até foi livre por um tempo.

Eu não tinha pressão, então criava minhas histórias só quando tava a fim.

Fazia meus vídeos sobre como contar histórias e fazer quadrinhos uma vez por semana.

Assitia séries e filmes com a Lu, minha namorada que virou esposa.

Treinava artes marciais com meus amigos.

Minha filha veio e supriu tudo que eu precisava por muito tempo.

Nem me importava tanto com o tempo livre nessa época, até porque ele meio que não rolava. Quem é pai ou mãe entende bem isso.

Aí veio a pandemia, a Fliptru começou a crescer, eu continuei fazendo conteúdos e quadrinhos.

Mas sempre deixando um de lado para fazer outro.

Até que em 2023 eu decidi terminar Tailer, um quadrinho que comecei 20 anos atrás (no tempo livre), e fazer dele um impresso completo.

Minha ideia com ele é colocar em prática tudo que estudei nesses anos sobre como criar quadrinhos.

Por isso chamo esse projeto de “Meu TCC de Quadrinhos”.

Bom, contei tudo isso pra chegar na questão final. Então vamos à ela.

Para:

  • ser um pai presente de verdade;
  • terminar as páginas do quadrinho Tailer, serão 400;
  • tocar a Fliptru, que tem crescido super-rápido nos últimos tempos;
  • botar em prática o projeto de marketing que planejamos para o lançamento do impresso em 2027;
  • continuar trabalhando em um emprego pra pagar tudo isso.

Não tem como ter o tempo livre… livre.

E eu entendi isso pela primeira vez.

Hoje, mesmo que eu não precisasse trabalhar oito horas por dia, eu não teria muito tempo livre livre de verdade.

Não por obrigação, mas porque percebi que se eu quero ver essas coisas darem certo eu preciso usar o tempo que tenho.

Ou seja, hoje eu não reclamo de não ter o tempo livre pra fazer “nada”, porque eu escolhi:

  • ser um pai presente de verdade;
  • terminar as páginas do quadrinho Tailer, serão 400;
  • tocar a Fliptru, que tem crescido super-rápido nos últimos tempos;
  • botar em prática o projeto de marketing que planejamos para o lançamento do impresso em 2027;
  • continuar trabalhando em um emprego pra pagar tudo isso.

Então, em vez de vir aqui reclamar da falta de tempo, vou na verdade agradecer por ter esse tempo disponível.

É graças a ele que vou poder atingir tudo aquilo que escolhi atingir.

Tudo feito no meu tempo livre.

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