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Caras e bocas e o prazer de apenas criar.

Caras e bocas e o prazer de apenas criar.

Lembro que quando comecei a a fazer quadrinhos queria muito chegar logo nas cenas de luta ou naquele painel com os heróis olhando pro horizonte em suas roupas bonitas.

Mas a medida que o tempo tem passado, eu tenho ficado cada vez mais interessado nas cenas sutis.

Os diálogos cheios de emoções e trocas de olhares que, mesmo em silêncio, dizem muito sobre o que está passando na cabeça de cada um.

Cada vez mais percebo que essa sutileza me chama mais a atenção do que as cenas de ação ou do que as a grandiosas “páginas duplas” com gritos e onomatopeias espalhafatosas, já características de uma estética e um estilo em que eu me inspiro bastante, o mangá.

O traço genérico e sem personalidade que copia “os japoneses” já foi o meu objetivo quando eu era mais novo.

O maior elogio que um “aspirante a mangaká” pode receber é o “seu traço é do nível dos japoneses”.

Hoje eu perguntaria: “a qual dos japoneses você se refere?”, por que existem artistas bons e ruins em qualquer país…

Recebemos somente o melhor daquele país, não é? Já que os medianos e ruins não fazem sucesso internacional. Por isso esse viés de que eles só fazem coisas incríveis.

Se você é um aspirante a quadrinista que bebe em fontes diferentes, como de super-heróis americanos ou quadrinhos europeus, talvez seja a mesma coisa. Mas eu vejo bem menos essa comparação fora da influência do mangá.

De qualquer forma, quanto mais maduro você se torna como artista, mais esse comentário passa a ser o oposto do que você quer ler ou ouvir.

Você busca ser original. Ter alguma personalidade na sua obra. Mesmo sendo algo difícil de atingir.

E, pra mim, a busca pelas expressões, as “caras e bocas”, é exatamente isso: a busca por personalidade no desenho.

Por isso as cenas de diálogo são tão mais interessantes agora. Porque elas me trazem a oportunidade de experimentar e praticar coisas nesse sentido.

Na página da foto desse post, por exemplo, existe uma tensão latente no ar.

Ao mesmo tempo em que as personagens estão só batendo papo sentadas à mesa, o clima entre as duas é tenso. Quase se pode sentir o peso no ar.

Até que, no último quadro, uma delas fala algo que dissipa esse peso imediatamente.

E tudo isso em apenas UMA página.

Criar isso me traz muito prazer na produção de quadrinhos.

Mesmo sabendo que poucos vão apreciar essa sutileza. Ainda vale a pena pra mim.

São essas pequenas coisas que me fazem continuar querendo criar.

São essas pequenas coisas que ainda me motivam a continuar mesmo sem a certeza de uma certa popularidade que muitos de nós, quadrinistas, almejamos com nossas obras.

Eu tenho percebido que o ato de criar por si só já é tem sido um prazer imenso. Mas não foi sempre assim.

Acredito que isso não acontecia antes porque eu não me dava tempo para apreciar o momento da criação, já que, imediatamente após terminar um capítulo, eu publicava online e ficava esperando o feedback dos leitores.

A ansiedade por ler comentários e ter engajamento me bloqueava de sentir esse simples prazer de criar a história.

Agora, com o projeto de terminar meu quadrinho de mais de 20 anos (o projeto The End of Tailer) tendo um planejamento de mais de dois anos de produção antes de começar a publicar, eu sinto que ganhei tempo para apreciar essas pequenas coisas.

Ser lido por muita gente é incrível, não me entenda mal, mas cada vez mais tenho acreditado que o ato de criar também deve ser.

Até porque ele dura muito mais tempo do que o rápido prazer do engajamento na internet.

Eu compartilho isso de coração, não como uma regra para ser seguida, apenas para dizer algo que venho sentindo com um projeto tão longo como o que estou agora.

Sinto que isso me mudou como quadrinista. Minhas motivações se tornaram mais sólidas quando passaram a ser mais sobre o ato de criar do que o resultado da criação.

Quando comecei esse projeto, visualizar o volume impresso na minha mente era uma fonte de energia criativa quando eu estava com baixa “força de vontade”.

Mas agora, apesar disso ainda ser importante na construção da minha motivação, eu sinto que ganhei algo a mais nesse sentido.

Faz tempo que não preciso fazer o exercício de visualização do impresso para correr para minha mesa de desenho.

E isso é bom, porque visualizar o resultado ajuda, mas também gera ansiedade.

Já se basear no prazer do ato de criar, cria apenas presença e ajuda na gestão de frustração caso o resultado esteja abaixo do esperado.

Afinal, mesmo que o resultado estejam aquem, o tempo criando já valeu a pena.

Bom, acho que já exagerei no tamanho desse post. Então, espero que isso ajude quem ler de alguma forma.

Até a próxima!

Tailer

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