Todo mundo sabe que as redes sociais são uma máquina de gerar ódio. Não é uma teoria da conspiração, não. É um fato.
Só que nessa semana eu senti isso na pele.
Não porque fui vítima de ódio, mas porque odiei e fui instigado a odiar mais.
Vou explicar.
Eu tenho acompanhado a copa do mundo de perto. Sou um fã de futebol somente de quatro em quatro anos.
Futebol tem tudo a ver com a relação emocional que cada um tem com um time, geralmente por conta de tradições familiares.
Sabe aquele domingo que seu pai assistia ao jogo na TV enquanto você brincava no chão da sala. Então, ali começa essa relação.
Eu criei isso com a seleção brasileira em 1994. Só com ela… meu “suposto” clube de futebol não costuma me causar tanta comoção.
E por isso eu acompanho a copa.
Como qualquer torcedor eu tenho aquele “ódio saudável” (se é que isso existe) pelo principal adversário do meu time, a seleção da Argentina.
Nessa copa do mundo (e na anterior) ficou claro o favorecimento da arbitragem e da FIFA para com a Argentina. Muitos pênaltis, gols adversários anulados, cartões que deviam ser dados, mas não foram, etc.
Quando aconteceu com o Cabo Verde, na segunda fase (16 avos de final), eu fiquei realmente indignado… mas no jogo contra o Egito (oitavas de final), eu fiquei inconsolável. Foi muito injusto.
Logo após o jogo eu acessei meu Instagram e os posts falando da injustiça começaram a pipocar.
Aos poucos fui rolando a timeline e cada vez mais coisas sobre os jogos da Argentina começaram a aparecer.
De repente, postagens de pessoas do exterior falando que a FIFA sempre favoreceu o Messi.
Depois, começaram as postagens sobre o racismo da torcida Argentina.
Aí, teorias sobre as premiações que o Messi recebeu não tendo sido merecidas… até eu mesmo discordo disso, mas elas continuaram a aparecer.
Montagens motrando o Messi fazendo besteira no campo, sendo um babaca com outros jogadores, etc.
Em apenas 24h eu estava sendo inundado com postagens que só me faziam ter mais e mais ódio da seleção da Argentina, do Messi e de seus torcedores horrorosos.
E então ódio começa a se espalhar para brasileiros que torcem pra Argentina…
“Como isso é possível?”, penso, “Merecem o pior!”.
E isso continuou até que minha própria consciência e senso críticos apitaram: “Pare! Pense um pouco…”
Eu estava vivenciando exatamente como funciona a máquina de gerar ódio que é o algoritmo das redes sociais.
Você engaja em um vídeo que ressoa com algo que você sente ou acredita. No meu caso, a Argentina é favorecida pela FIFA.
Então uma ideia começa a se propagar. Além de favorecidos, seus torcedores são nojentos, racistas e horríveis.
Depois ela se aprofunda. A Argentina é um país horrível que apoia o racismo.
No fim, você generaliza todos os argentinos como racistas e os odeia profundamente.
O algoritmo então continua alimentando isso porque é o que mantém você engajado. Está corroborando sua teoria e fazendo você se aprofundar nessas ideias.
Não estou discutindo se a ideia em si sobre os argentinos é verdade ou mentira, o que quero é jogar uma luz em algo que eu percebi acontecer muito rapidamente: a manipulação do algoritmo.
Não necessariamente o algoritmo QUER que eu odeie os argentinos, esse é um juízo muito comum que as pessoas fazem, como se ele fosse sempre manipulado para fomentar essa ou aquela idea por forças maiores.
Eu até acho que isso acontece em alguns casos sim, mas o que acredito de verdade é que o algoritmo foi simplesmente criado, e é calibrado, de uma forma extremamente irresponsável.
Seu único objetivo é manter você preso no aplicativo e desesperado para voltar logo que deixa ele de lado.
Então, se reforçar uma ideia de ódio é o caminho, ele simplesmente vai fazer isso.
Sabemos que o ódio engaja.
Ele também sabe, por isso foca nisso.
Assim que identifica a chance de seguir por esse caminho, ele o faz sem medir consequências.
Eu faço conteúdo para internet desde a primeira versão desse blog, lá em meados de 2003, e até a década de 2010 a gente vivia um mundo em que fazer algo otimizado para ser encontrado por ferramentas de busca (ex: Google) era o caminho.
Ainda em 2018, por exemplo, fazendo conteúdo para o Youtube, a tática para aumentar a audiência ainda era focar em conteúdos de valor que batiam com as buscas dos usuários: “como fazer isso?”, “O que é tal coisa?”.
Depois passamos pra era do “você está fazendo isso errado”, que já era um começo da fase dos algoritmos que favoreciam a polêmica em detrimento do conhecimento explícito. Era o famoso clickbait, que em tradução livre significa isca de clique.
Caça-clique ou isca de cliques é um termo que se refere a conteúdo da Internet que é destinado à geração de receita de publicidade on-line, normalmente às custas da qualidade e da precisão da informação, por meio de manchetes sensacionalistas e/ou imagens em miniatura chamativas para atrair cliques e incentivar o compartilhamento do material pelas redes sociais. Manchetes caça-cliques costumam prover somente o mínimo necessário para deixar o leitor curioso, mas não o suficiente para satisfazer essa curiosidade sem clicar no conteúdo vinculado. Wikipédia
Nos últimos anos saímos disso para entrar em algo que, pra mim, é muito pior. A real decadência das redes sociais.
Agora estamos na fase da isca-de-raiva, ou hatebait em inglês. Os reacts tomaram conta. A busca pela polêmica é a única forma de fazer o seu perfil se espalhar para pessoas novas.
Hatebait, também muito conhecido como rage bait (ou “isca de raiva”), é uma estratégia digital em que criadores publicam conteúdos deliberadamente absurdos, incorretos ou ofensivos para provocar indignação e raiva. O objetivo não é informar, mas sim gerar engajamento rápido (comentários, compartilhamentos e visualizações) para lucrar com os algoritmos.
Fazer um conteúdo “como fazer tal coisa” não adianta mais, precisa ser algo que incite a vontade de comentar e compartilhar.
E nada incita mais o usuário médio de redes sociais do que uma pauta de ódio ou revolta.
Você vê hoje perfis de grandes meios de notícias postando coisas bobas para viralizar e deixando notícias de verdade de lado.
Você vê perfis de educadores fazendo react de conteúdos dos outros pra falar o quanto é revoltante que eles postem aquilo.
Você vê divulgadores científicos focando somente em desmentir as fake news de outros perfis grandes, porque isso gera revolta e, em consequência, engajamento.
Além de levar de bandeja os otários que acreditam na fake news e vem ao perfil gerar mais engajamento pra mandar hate pros autores da postagem.
É só isso que funciona nos dias de hoje. Nada mais.
Enfim, eu não tenho mais vontade de fazer redes sociais. Mas eu não vivo disso, então eu posso só parar, né. Agora quem vive disso precisa se adaptar para viralizar ou mudar de carreira…
Tenho pensado em continuar fazendo conteúdo apenas para grupos privados, como lista de emails e grupos de whatsapp, para evitar alimentar o algoritmo.
Mesmo isso traz um desafio enorme, já que a dificuldade é chegar até as pessoas distribuindo conteúdo assim fora da máquina.
Ainda não sei o que farei no futuro, mas continuar produzindo para esses algoritmos, sem a intenção de gerar sentimentos como raiva, revolta e ódio, é energia jogada fora.
Eu vivenciei e percebi claramente a manipulação da máquina de gerar ódio ali, na palma da minha mão, e não quero mais ter nada a ver com isso.
Tô fora.
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Perfeito. Eu nem acompanho futebol e me vi tendo raiva do Messi. Por minha vez, me sinto uma resistente nas redes, porque insisto em fazer conteúdo sem cair nas armadilhas do ódio pra captar pessoas. Vamos ver até quando eu consigo!!!
Obrigado por ler! Eu sinto que não se consegue chegar muito longe sem usar essas “ferramentas” de engajamento que são horríveis… talvez tenhamos que focar em atingir aquelas pessoas que realmente importam em vez de focar em números 🤷