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Vergonha dos quadrinhos que fez no passado

Uns dias atrás recebi um email de uma das minhas primeiras alunas do curso de quadrinhos HQ na Prática.

Ela falava sobre ter receio de indicar seu quadrinho para as pessoas porque havia melhorado a qualidade da arte desde que publicou os primeiros capítulos e não considerava “bom o bastante” o que tinha feito antes.

Ou seja, de certa forma ela sentia vergonha dos quadrinhos que fez no passado.

Eu entendo esse sentimento, apesar de nunca ter sentido isso exatamente. Porque sempre gostei de publicar tudo que eu tinha disponível desde que comecei.

Foi assim quando lancei a Fliptru em 2019. A primeira coisa que fiz foi lotar meu perfil com quadrinhos que eu produzi mais de uma década antes.

Primeira página do prólogo de Tailer (2004)

São bons quadrinhos? Deixo que você julgue isso lendo cada um deles e comentando o que acha.

De qualquer forma isso não faz muita diferença, porque sendo bons ou ruins, eles são parte concreta da minha história como quadrinista. São parte do que sou hoje.

Se alguém acha meus quadrinhos um bom entretenimento hoje é porque eu tive anos de produção de quadrinhos com a qualidade (duvidosa) do que eu podia fazer na época.

Materiais baratos e um computador ruim compartilhado com a (grande) família inteira era tudo que eu podia ter.

Uma arte inocente, amadora, com poucas bases para uma boa perspectiva e anatomia, porque nunca tive acesso a cursos de desenho até aquele momento.

Tudo isso poderia ter me impedido de publicar naquela época.

Não impediu.

Talvez porque fossem outros tempos e as redes sociais não existiam, portanto não causavam a “pressão por comparação” que causam hoje.

A gente vê prodígios com artes incríveis publicadas no Instagram ou Facebook e logo pensa: “nossa, não tô nem perto desse nível, melhor esconder minha arte até ficar boa”.

Tenho uma notícia pra você: você nunca vai se achar “bom o bastante”, porque sempre terá gente “melhor” (com aspas enormes aqui) para você se comparar nas redes sociais.

Página de Tailer Parte 14 (2020)

Isso é o que chamo de “pressão por comparação”. Você se pressiona porque se compara constantemente.

Essa pressão é algo que pode ser um incentivo à melhoria constante ou um peso na sua mente que pode acabar te fazendo desistir.

De qualquer forma o ponto desse texto é que tanto você quanto a pessoa ali que é “melhor” passaram por um processo de aprendizado e não devem ter vergonha disso.

Pelo contrário, é muito saudável que isso seja mostrado. Que as pessoas vejam a trajetória e não apenas o destino final, ou melhor, o momento atual, da nossa jornada.

Então exiba com orgulho os quadrinhos que fez no passado e mostre assim sua evolução para todo mundo.

Durante esse processo você vai gerar ainda mais empatia das pessoas que são sua base de leitores. Na verdade você estará criando sua base de leitores e de forma mais firme. Isso é ouro para manter o relacionamento e o crescimento dela.

Não tenha vergonha dos quadrinhos que fez no passado. Nunca.

Tenha orgulho da sua trajetória. Sempre.

Por Marcus Beck

Sou quadrinista, desenvolvedor de software, marido da Lu e pai da Laura.

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2 respostas em “Vergonha dos quadrinhos que fez no passado”

Acrescento ao seu comentário (tendo a liberdade è claro) o seguinte pensamento : È errando que se acerta!
Quando comecei a me aventurar , com um lápis e papel em meados de 1995 , sempre tive convicção que deveria aprender muito , sendo um auto-didata, qualquer trabalho ( de outros artistas) me serviram de nível a ser alcançado ! Mas sempre tive que respeitar à mim mesmo, buscando me avaliar de forma racional e mantendo minha identidade artística. E essa forma de ver meu passado , mudou todo o meu presente , pois hoje vi ; que errei mas também acertei e que arte além de conhecimento , metodologia, è questão de identidade.
Não somos obrigados, a ver-mos o mundo da mesma forma , tão pouco ilustra-lo graficamente também.
Se no passado eu cometera erros ex: proporcionais ou anatomia …hoje eu sei como acoberta-los pois afinal eu
Sou quem sou .

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