Como fui contratado por uma empresa americana

Como fui contratado por uma empresa americana

Como fui contratado por uma empresa americana e passei a ganhar três vezes mais sem sair do Brasil.

Comecei a trabalhar com desenvolvimento de software cerca de 20 anos atrás e nunca cheguei a pensar em trabalhar para uma empresa americana e ganhar em dólar.

Até que algo aconteceu e é essa história que vou compartilhar neste post.

Como estava minha carreira antes da empresa americana

Em 2021 eu trabalhava para uma startup brasileira e exercia o papel de Tech Lead.

Fui contrato para criar um time novo e graças a isso eu tinha contato direto com os C-Levels da empresa.

Era uma oportunidade de fazer carreira nessa startup brasileira, sem dúvida.

Depois de um primeiro semestre mais conturbado, começamos a colher os frutos no segundo semestre.

Eu estava atingindo OKRs e agradando tanto os meus líderes como meus liderados.

Era realmente muito bom trabalhar lá e eu me sentia realizado em termos profissionais… com uma exceção: eu trabalhava demais e não ganhava o bastante.

E a grana?

Conversava constantemente com meus líderes sobre a questão financeira.

Os lembrava que até mesmo quando aceitei o cargo eu já mencionava que o salário era menor do que eu ganhava anteriormente e que eu esperava um retorno financeiro maior em até um ano, caso eu atingisse os objetivos que me foram propostos.

Chegando mais perto do final do ano, o salário menor estava cobrando seu preço… minha reserva financeira estava acabando.

Já havíamos diminuído os gastos durante a pandemia, mas após o nascimento da nossa filha ficava cada vez mais difícil diminuir os custos sem perder a qualidade de vida.

Então comecei a conversar com minha esposa, a Lu, sobre a possibilidade de ganhar em dólar trabalhando para uma empresa americana.

Será que empresa americana paga bem brasileiro remoto?

Lembro que em determinado momento ela disse a seguinte frase: “será que pagam mesmo X dólares para um desenvolvedor do Brasil?”.

No dia seguinte a essa conversa eu recebi um email com um convite para fazer parte da Remotely, uma empresa que conecta devs da America Latina com empresas selecionadas dos EUA.

Acredite se quiser, no email estava escrito “salários a partir de X dólares” onde X era literalmente o mesmo valor que a Lu comentou no dia anterior.

Passando a surpresa eu entrei em contato e já comecei a conversar com as pessoas da Remotely com meu inglês enrolado, é claro.

Mas você fala inglês, né?

Agora eu falo.

Mas eu não me consideraria um falante do inglês no final do ano passado, quando comecei as entrevistas.

Quer saber? Meu inglês não é bom, mas eu consigo me fazer entender, e os gringos tão acostumados com pessoas que não são nativas falando com eles.

Afinal inglês é uma lingua franca.

Língua franca ou língua de contato é a língua que um grupo multilíngue de seres humanos intencionalmente adota ou desenvolve para que todos consigam sistematicamente comunicar-se uns com os outros.

Citação da Wikipédia

Entenda que eu não tinha experiência falando inglês, mas, surpreendentemente, eu dei conta de conversar com quem eu precisava durante todo o processo.

Quero abordar mais esse assunto em postagens futuras, mas agora vamos falar um pouco mais sobre o processo de contratação.

O processo

Na primeira conversa, eles, o pessoal da Remotely, alinharam espectativas comigo. O que eu queria pra minha carreira? Quanto queria ganhar? Etc.

Após essa conversa os emails com empresas que batiam com meu perfil começaram a chegar.

Todos com um link para uma página no Notion com informações sobre a empresa e com vídeos de founders ou managers explicando os desafios de cada vaga.

Cabia a mim decidir se queria ou não entrar no processo seletivo de cada uma.

Se eu achava que fazia sentido eu dava o OK pra agendarem a primeira entrevista e conversava com alguém da empresa.

No meio tempo entre essas conversas, a Remotely me ofereceu uma “mock coding interview” para eu treinar antes de passar por entrevistas de código com os gringos.

Aceitei participar do treino e tive uma experiência incrível e um feedback construtivo em vários quesitos.

Dias depois ainda recebi um relatório detalhado do que eu era bom e do que poderia melhorar numa entrevista de código.

Foi realmente bem produtivo.

Após conversar com algumas empresas eu dei um feedback para a Remotely dizendo que eu gostava mesmo era de trabalhar em times pequenos e em empresas que estão começando.

Fiz muito isso no passado e adoro os desafios iniciais dos times de engenharia. Além de sentir que meu trabalho tem um impacto maior nesses contextos.

Então eles me direcionaram para a Press Hook.

Conversei com o Dustin, CTO da Press Hook, e depois com os dois únicos membros do time de engenharia da empresa até então.

Poucos dias depois eles me fizeram uma proposta.

Adivinha só? A proposta foi superior ao tal do valor X que a Lu questionou se eles pagavam dias antes.

O momento da escolha

Então chegou o momento de fazer a escolha.

Enrolei o pessoal da gringa o máximo que pude para esperar a avaliação semestral da empresa em que eu trabalhava aqui no Brasil.

Afinal, eu falei por um ano com eles que eu precisava ganhar melhor e esperava a avaliação para saber se eu tinha cumprido a minha parte no acordo.

A avaliação veio e eu fui promovido a Tech Manager.

Que honra pra mim! De verdade!

Só que infelizmente o aumento de salário foi de apenas 13%, algo que não batia com as minhas expectativas.

Eu adorava trabalhar na empresa. Vestia a camisa e dava tudo de mim, trabalhando muito… mas ganhando “pouco”.

Aqui vale um disclaimer.

Eu usei as aspas no “pouco” porque o salário não é ruim. Na verdade é um salário muito bom para os padrões brasileiros, ok?

Só que eu já ganhava mais do que isso antes de entrar nessa empresa e agora eu tinha uma família para sustentar.

O salário oferecido pela empresa americana equivalia a 3x o valor líquido que a empresa brasileira ia me pagar. Você leu direito, três vezes.

Eu não esperava que a empresa brasileira cobrisse a proposta, mas eu esperava que minha promoção me trouxesse um salário melhor… se esse fosse o caso, possivelmente eu teria continuado meu plano de carreira dentro da empresa brasileira.

Isso porque eu gostava muito de lá.

Porque a proposta americana era de trabalhar como desenvolvedor sênior, ou seja, bem menos trabalho do que Tech Manager (já que pra mim dev sênior é a zona de conforto) e ganhando três vezes o valor que um manager júnior ganha no Brasil.

Então eu tinha mesmo que gostar muito de onde eu estava para chegar a considerar uma recusa à essa proposta, concorda?

No final das contas, cá estou, trabalhando bem menos em uma empresa americana e ganhando bem mais.

Um mantra que eu vivo entoando acabou se realizando de verdade.

“Eu trabalho pouco e ganho muito.”

Mantra do marcus pra repetir todo dia

Ah! Falando da Remotely, que conecta devs da América Latina com empresas nos EUA, saiba que não me custou nenhum centavo participar de todo o processo.

Eles ganham com uma taxa que cobram das empresas que estão contratando e não dos candidatos.

Para trabalhar para o exterior através da Remotely os requisitos são os seguintes:

  • pelo menos quatro/cinco anos de experiência trabalhando com desenvolvimento de software;
  • um bom inglês (não precisa ser perfeito, mas tem que conseguir conversar tranquilamente com alguém via vídeo chamada).

The leap of faith

Entenda que eu me arrisquei muito fazendo a troca de carreira.

Eu dei um leap of faith.

Leap of faith significa literalmente “salto de fé”, mas, apesar de ela existir no português, a expressão correspondente mais comum em nosso idioma é “voto de confiança”.

Do blog do mairo vergara, professor de inglês

Dei um voto de confiança em mim mesmo.

NUNCA tinha trabalhado em inglês na vida… nem sequer feito reuniões em inglês antes.

Inclusive isso me causou muito estresse cognitivo quando comecei a trabalhar para os americanos, mas isso é história para outro post.

As vezes a gente só precisa de coragem para dar um passo mais arriscado e ver no que vai dar.

Foi isso que fiz e hoje estou muito feliz com minha escolha.

Hoje vivo no interior de São Paulo, numa casa com muito verde em volta e passo muito tempo com a Lu e a nossa filha.

Estou vendo minha filha crescer e estando presente na vida dela sem precisar sacrificar o meu salário para isso.

Escrevo este post com a ideia de incentivar você que está lendo a tomar coragem e se arriscar na sua carreira também.

Quem sabe você não dá a mesma sorte que eu, não é?

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